domingo, 30 de novembro de 2025

 

Errâncias, Brechas e Esperanças:

o ofício de ensinar

Marcia Maria do Nascimento

 

Nos estojos há sempre uma caneta que perdeu a tampa e ganhou o formato da mão que a segura todos os dias. Larrosa diz que a caneta é gesto de vida estudiosa – e talvez seja essa vida que mantenha tantos professores ligados ao sentido profundo da docência, como se a cada traço de tinta houvesse um modo de registrar e permanecer no mundo. Ser professor é existir como inspiração, como modo de habitar o cotidiano.

E existir na escola pública é mergulhar em seu caos colorido. Esse ser professor não é ideia abstrata nem modelo ideal: é corpo que se desloca pelos meios de transporte, mão que sustenta livros e cadernos, olhar que insiste em não esmorecer diante das dificuldades. É fazer-se professor com livros, lápis, cadernos, lousas – ferramentas que funcionam como pás, cavando, cotidianamente, possibilidades onde antes havia apenas terra dura. Nesse cavar diário, a aprendizagem se apresenta como reciprocidade silenciosa entre professor e estudante, atravessando o cotidiano e sustentando a escola como espaço vivo.

A docência também carrega uma solidão que raramente se nomeia. Uma melancolia leve que se insinua quando tudo ao redor vira planilhas, formulários, protocolos, tabelas, índices, números. Muitas vezes parece restar pouco daquilo que motivou a escolha por esse caminho. Mas basta um novo dia, uma nova proposta e o olhar curioso de um estudante para reavivar a disciplina mais fundamental do ofício: a disciplina do olhar que abre mundos. Um olhar que acende janelas. Nesse instante, professor e estudante se tornam parceiros na travessia, porque aprender é sempre encontro – e estudar, sempre convite. Assim o cotidiano se leva adiante: em pequenos gestos que, repetidos, tornam-se prática formadora.

Estudar, escrever, arar: verbos que se repetem como rezas de persistência. Verbos que deixam poeira nas mãos e nas roupas. Entre dedos que carregam cansaços, canetões que mancham as mãos e lousas, lápis que se desgastam, canetas que findam – e, apesar disso, ou talvez por causa disso, os gestos seguem. Mundos possíveis continuam a ser cavados no chão duro das expectativas e pressões. Ensinar e aprender, nesse cenário, tornam-se atos de insistência contra a aridez do mundo.

Nesse ritual cotidiano, forma-se um ethos, no sentido foucaultiano: o modo de se relacionar consigo mesmo, com o outro e com o mundo. Um ethos que nasce quando o professor se reconhece responsável por um tipo raro de delicadeza: a de abrir brechas – para o pensamento, para a imaginação, para a infância, para o humano. Brechas que impedem que a escola se transforme em máquina total, homogênea, esmagadora.

Mas há algo que pulsa ainda mais fundo no exercício desse ofício: a resistência.

O professor da escola pública é, antes de tudo, um corpo que resiste.

Resiste quando recusa que a criança seja reduzida a número. Resiste quando transforma o tempo apressado em tempo de escuta. Resiste quando o excesso de burocracia tenta engolir a aula e, ainda assim, a aula acontece. Resiste quando oferece escuta e diálogo a quem recebeu silêncio. Resiste quando abre horizontes a quem sempre disseram que não era preciso continuar, que o pouco já bastava.

Cada gesto – por menor que pareça – é uma desobediência às desigualdades que tentam moldar o destino dos estudantes. “Dar aula”, ali, é também um ato político. É afirmar que ninguém está condenado ao lugar de onde veio. É insistir que aprender é direito, e não privilégio. É garantir que seja para todos, com qualidade, com liberdade. Porque a educação pública só faz sentido quando reconhece cada criança como parte legítima do mundo – e quando garante a todas acesso efetivo ao conhecimento que transforma.

Por isso a sala de aula, tantas vezes, se transforma em território de esperança. Nela se costuram mundos que ainda não existem, mas que podem vir a existir. E tudo isso acontece porque, diariamente, alguém mostra um novo caminho a alguém, numa corrente silenciosa que sustenta a própria ideia de sociedade.

Larrosa destaca a distinção entre professor e pedagogo, embora ambos possam habitar a mesma pessoa. O pedagogo – aquele que conduz – não conduz pela força, mas pela abertura de caminhos. É guardião da alma da escola, protetor de seu caráter público e formador. Mantém viva a possibilidade de que a escola seja travessia, e não confinamento.

Travessia: palavra que acompanha cada início de aula. Todos os dias, crianças atravessam limites, origens, histórias – e os professores também. Aprender, como lembra Serres, é errância. É desvio. É nascer outra vez. Ser professor e acompanhar essa errância é também deslocar-se, rearrumar-se, reinventar-se. Só assim o conhecimento circula como deve: livre, plural e acessível.

E a escola, quando consegue ser verdadeiramente escola, oferece justamente isso: a chance de reinventar a vida. É o espaço onde o destino não está pré-determinado, onde é possível bifurcar, escolher, sonhar. A escola coloca o mundo sobre a mesa – às vezes esmaecido, às vezes incompleto – mas o entrega ao alcance das mãos. E o entrega a todas as mãos, sem exceção, afirmando que ninguém deve ficar de fora da experiência de aprender.

É nesse gesto – simples, diário, frágil e poderoso – que reside a resistência mais profunda.

Porque cada caderno aberto é uma porta.

Cada pergunta é uma fissura no mundo tal como ele é.

Cada aprendizagem é uma pequena transformação que se espalha.

Nas estratégias diversificadas de cada aula, há sementes.

Nas mãos dos estudantes, há futuros ainda sem nome.

E no trabalho do professor, há sempre a possibilidade de que a sociedade inteira se mova – mesmo que um milímetro por vez.

Ensinar e aprender, quando acontece de verdade, é esperança radical. E esperança, sobretudo nestes tempos, é a forma mais poética e mais urgente de resistência.

Um comentário:

  1. Esse texto trouxe uma reflexão sobre o fazer do professor no seu cotidiano, no chão da escola, fiquei encantada com essa escrita e as reflexões que fiz durante a leitura e após. Parabéns Márcia!

    ResponderExcluir

Aprender a ensinar, o desafio do ser professor

Mais de meio século ensinando. Tempo em que estou sendo uma aprendiz desse trabalho que nunca se completa. De fato, ainda não me considero f...