quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Aprender a ensinar, o desafio do ser professor

Mais de meio século ensinando. Tempo em que estou sendo uma aprendiz desse trabalho que nunca se completa. De fato, ainda não me considero formada para exercê-lo plenamente. Há sempre alguma coisa que falta, um imprevisto, uma situação inusitada, que ainda me pegam desprevenida. Tenho me dado conta disso, desde que me formei, nos anos 60, ou melhor, antes, quando dei minha primeira aula prática para alunos do Jardim de Infância. O conteúdo sorteado foi considerado pela professora e colegas muito fácil de ser trabalhado com as crianças e eu dei tudo de mim para encantá-las, para fazê-las viver comigo essa minha primeira experiência de ensino. Senti-me privilegiada pelo ponto sorteado: As aves. Minha primeira providência foi buscar um meio de introduzir o tema. Que tal aquele pato de brinquedo de uma prima caçula.? Era mesmo um achado: tinha um bom porte, andava, abria e fechava as asas, fazia “quá, quá”, mexia a cabeça prá lá e prá ca ... E até cantava! Estudei tudo sobre o que as crianças de quatro ou cinco anos podiam se interessar sobre as aves. Fiz meu plano de aula, dentro do exigido pela professora, enfim, preparei-me com todo o cuidado para dar uma “aula magna” sobre o assunto. Para resumir o acontecido, nada do planejado aconteceu. Iniciei a aula dando corda no pato e soltando-o no espaço da roda em que as crianças se sentavam. E depois, tudo aconteceu exatamente como eu jamais previra. O pato foi “massacrado” por mais de 20 crianças enlouquecidas, que corriam, jogavam o pato para todo o lado, até que a corda se quebrou, as asas se soltaram e a aula acabou. No meio da sala vazia, recolhi os cacos daquele pato em que tanto depositara o sucesso de minha aula. Todos se foram e eu também. Só pensava na nota que iria receber para coroar meu fracasso e em como fazer para consertar o pato. O brinquedo não tinha como ser substituído, nem recuperado. Nem mesmo dava para ser colado, porque era feito de “galalite”- um material plástico sem liga. Assim foi que me dei conta de que ia ser muito difícil continuar insistindo em ser professora. Mas eu queria muito e consegui me formar. Essa experiência me marcou como normalista, que era o nome dado a quem estudava para exercer o magistério. Minhas colegas me consolaram, mas no fundo pareciam achar que eu não dava para o ofício. Terminado o curso, diploma na mão, procurei uma grande educadora paulista, Carolina Ribeiro, para me orientar no exercício de minha profissão. Ela havia sido a diretora da escola onde cursei o primário, o ginasial e onde concluí a minha formação. Estudei desde os cinco anos de idade no Instituto de Educação Caetano de Campos – escola pública, modelo e altamente prestigiada na formação de professoras e professores, naquela época. O conselho da Professora Carolina se resumiu no que segue, depois de ter lhe narrado o acontecido naquela aula prática sobre as aves:– um trauma confesso. Ela me fez pensar sobre o que as crianças buscam na escola, todos os dias; o que elas esperam dos professorese do tempo em que ficam juntas; das aulas, das notas, dos ritos escolares. Eu tive então uma aula que valeu por todas aquelas que tivera na disciplina “Práticas de Ensino” do Curso de Magistério. O tempo foi passando e eu fui me envolvendo com a educação escolar de corpo e alma. Não tenho pretensões de ter chegado ao que se pode chamar de uma boa professora, porque cada dia de aula é uma nova oportunidade de aprimorar a minha formação. Procuro fazer de minhas aulas um encontro em torno do estudo de um dado assunto, uma partilha de experiências, em que as ideias se cruzam, se chocam e se prolongam. Cada aula é imprevisível, irrepetível, insubstituível - tem rumos e ritmos próprios. Nada se pode prever de seus resultados. O estudo não se contém nos limites das palavras do autor do capítulo de um livro, de um artigo e vai tomando rumos inesperados. Novas ideias e proposições recriam o texto; parecem, às vezes, fugir do original, mas o reencontram em novos argumentos. E assim vamos retraçando, meus alunos e eu, um caminho de compreensão inesperado, original, autenticado naquele momento, mas que pode, em outros, ser reeditado e interpretado por novas ideias e contribuições. Compreender não se reduz ao que está escrito e definido nas palavras de um texto, nas imagens, nos objetos que nos são apresentados para um estudo, um momento de aprendizagem. Então me ponho a pensar no quanto se perdeu daquela aula, em que um pato de galalite foi decomposto por um grupo de alunos, que, na ânsia de conhecê-lo, decompuseram-no, literalmente, na avidez de entende-lo por inteiro, por seus próprios meios. Estudar é decompor, recompor o novo tantas vezes quanto o fizermos para entendê-lo, mas sem a intenção de chegar a tudo o que esse novo nos propõe. Isso é o que temos de ensinar principalmente às crianças, mas também a todos os alunos, para que façam do estudo uma busca consciente e interminável de seus achados. O elogio do estudo, para mim tem a ver com a infinitude do conhecimento. O elogio da escola, com proporcionar o lugar e o tempo de dedicação para o estudo. E o elogio do professor está em deslumbrar o aluno com o estudar, fazendo-o reconhecer sua capacidade de descobrir novidades, de ter ideias próprias para explicá-lo, e de decompor, sem limites, qualquer que seja o objeto de aprendizagem que o interesse e o encante. Quanto perdi daquele momento que tinha tudo para ser uma professora impecável, compreendendo os gestos, as estratégias de estudo daquelas crianças diante de um pato incomum, de uma novidade... Mas sempre há tempo para se refazer um percurso, para se abrir novas estradas. É o que tenho procurado fazer nesta longa carreira de ensinar. Maria Teresa Eglér Mantoan Campinas, em novembro de 2025

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