Helio Braga da Silveira Filho
O livro Elogio do Professor
é uma obra interessante, devido a diferentes fatores: à sua forma, à variedade
de autores e aos diversos aspectos abordados sobre o tema do ‘ser professor’ e seu
fazer ensinante; caracterizando-se “como um conjunto de atividades com
um tema em comum e com a participação de diferentes pessoas dispostas e
envolvidas em certo ânimo estudioso”.[1]
Ficando bem localizado na tangência entre outras duas obras
produzidas pelo mesmo grupo de autores, encabeçado por Jorge Larrosa: Elogio
do Estudo e Elogio da Escola.
E entre tantas possibilidades de
exploração que sua leitura suscita, fui fisgado pela questão do ofício e sua
dimensão artesã, por acreditar na natureza criativa do ‘ser professor’,
construindo sua prática como uma obra de arte. Para tanto, estabeleci um enlace
com Mário de Andrade e a noção da arte, enquanto uma artesania em permanente
fazer-se – arte que, enquanto conceito e expressão, entendo habitar a maestria
docente.
De Mário busquei suporte no texto
O Artista e o Artesão, de 1938, produzido em um período histórico brasileiro
preocupado com a identificação e a compreensão de um ‘ser brasileiro’, ao mesmo
tempo procurando desvendar o papel da arte junto ao processo dos modos de ser e
fazer-se brasileiro. Para mim, Mário de Andrade, em seus estudos de estética,
de cultura e de antropologia, e muito em sua produção missivista, é um profundo
educador, tanto no que professa, como no modo como se coloca, provocando e
atiçando seus parceiros e parceiras com uma postura instigadora e crítica, como
um mestre plenamente consciente de seu ofício, como quando coloca: “está claro
que o ser a arte a finalidade mesma da arte, não exclui os caracteres e
exigências humanos, individuais e sociais, do artefazer”.[2]
E, dito isso, por que não considerarmos a existência de um ‘arte-educar’?
O professor e a escola, desde o
final do século passado, têm sofrido enormes transformações em seu tecido
orgânico, na materialidade de seu existir, nos modos de seu fazer, esgarçando-se
a ponto de questionarem o próprio sentido
de seu papel social, desmembrado pela destrutiva concepção neoliberal, a qual é
bem exemplificada por Jorge Larrosa, quando afirma: “A sociedade
capitalista transforma tudo em útil e em instrumento, mede todas as coisas pela
sua função e pela sua eficácia. Mas a lógica da renovação permanente e da
obsolescência programada impede também que os úteis ganhem presença e tenham
alguma forma de permanência. Nossa sociedade destrói tudo o que se tornou
inútil, antiquado, fora de moda, velho, e o transforma em dejeto, resíduo,
desperdício. Nossa sociedade funciona como uma gigantesca produção de objetos
de consumo e de objetos de produção, de coisas de comer e de coisas de usar,
mas funciona também como uma gigantesca produção de lixo na qual também os
seres humanos são reduzidos a coisas utilizáveis e descartáveis”.[3]
Seria ilusório crer que a
educação não sofreria o impacto de tão monstruosa arquitetura. Destacando que,
dentro deste contexto, o professor tem sido dos profissionais mais aviltados
nas últimas décadas, perdendo autonomia, autoridade e credibilidade, provocando
reflexos negativos em sua autoestima e, inclusive, em sua saúde física e mental,
afastando-o lentamente da definição apresentada pelo livro: “ser professor,
acreditamos, é um modo de vida. Modo que se faz visível através de formas
particulares e gestos precisos. Desses que moldam o corpo ao ofício. Pensar o
ofício como um modo de vida leva-nos a observá-lo como aquilo que “faz com que
alguém se comporte de um modo consequente com aquilo que é”. A forma, assim,
passa a ser constitutiva daquilo que se é”.[4]
E são justamente essas “formas
particulares e gestos precisos”, que têm sido tão contundentemente impedidos de
se constituírem, que quero realçar como os componentes mais singulares desse
ser professor, portador de um ofício. Ofício este que precisa ser explorado e
vivido, num aprendizado de artesania interminável, exigente de um labor experimentado
e sistematizado em busca de uma suposta forma definitiva que, conscientemente,
sabe-se inalcançável, mas que, sem a prontidão que a sua busca implica, jamais
atingirá objetivos almejados. Mário de Andrade esclarece muito bem este
processo ao nos explicar que “artista que não seja ao mesmo tempo artesão,
quero dizer, artista que não conheça perfeitamente os processos, as exigências,
os segredos do material que vai mover, não é que não possa ser artista
(psicologicamente pode), mas não pode fazer obras de arte dignas deste nome.
Artista que não seja bom artesão, não é que não possa ser artista:
simplesmente, ele não é artista bom. E desde que vá se tornando verdadeiramente
artista, é porque concomitantemente está se tornando artesão”.[5]
O professor-artesão constitui
suas ferramentas, feitas de materiais diversos, como lousa, caneta, computador,
caderno, livro, entre tantos outros possíveis, além da vivência de relações e
convívios entrelaçados em um local concreto, dentro de um tempo histórico
demarcado. Elementos, estes todos, que são apreciados, processados,
sistematizados, operacionalizados por meio de uma atitude estudiosa, geradora
de uma execução para além da mera técnica. Como diz Mário de Andrade, “há uma
parte da técnica de arte que é, por assim dizer, a objetivação, a concretização
de uma verdade interior do artista. Esta parte da técnica obedece a segredos,
caprichos e imperativos do ser subjetivo, em tudo o que ele é, como indivíduo e
como ser social. Isto não se ensina e reproduzir é imitação”.[6]
Pois, como ele ainda sustenta, “a solução pessoal do artista no fazer a obra de
arte é ‘inensinável’”.[7]
Tal dimensão ‘inensinável’ é a
marca de um ofício docente que é único e diferente entre si, alimentada por uma
existência ensinante para além de uma postura mecanizada, tão ao gosto da
escola do capital, voltada ao consumo e ao trabalho alienado. Mas, ao contrário
disso, essa dimensão é pautada por uma dinâmica intensa de busca, geradora de
uma identidade em permanente construção. Identidade esta que, no dizer de
Antonio Nóvoa, “não é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um
produto. A identidade é um lugar de lutas e de conflitos, é um espaço de
construção de maneiras de ser e de estar na profissão. Por isso, é mais
adequado falar em processo identitário, realçando a mescla dinâmica que
caracteriza a maneira como cada um se sente e se diz professor”.[8]
E é nesse processo ontológico que
o professor vai constituindo seu legado, a forma como se coloca durante a
execução de sua obra, o ensino que pratica junto a seus alunos nos espaços
educativos que habitam conjuntamente. Aí são experimentados os “saberes e
sensibilidades aprendidas e cultivadas”[9]
ao longo de toda uma vida particularmente estudiosa, acionando um verdadeiro
movimento de resistência à desqualificação que tentam impor, tanto ao professor
quanto às escolas.
A vitalidade aí estabelecida,
nesse encontro educativo, envolvendo o professor consigo mesmo, bem como com
seus alunos, permite que vejamos o ato de educador para além de uma prática
mecânica e desabitada de afetos. A mesmice didática cede espaço para movimentos
mais diversos e estimulantes, pois centrados na própria experiência vivificada
no palco do aprendizado, em uma trama amorosa e perene que compõe o próprio ser
professor, o artesão moroso e cônscio de seu ‘arte-educar’ – experiência esta
que, não se pode esquecer, entende-se como “algo que nos toca, que nos impacta e nos
derruba, e que provoca uma nova maneira de enfrentar o mundo, a nós mesmos e
aos outros”.[10]
Elogio do Professor é uma
obra estimulante, ao recuperar a noção da essência do ser professor,
constituída de diminutas ações, gestos limpos e afetuosos, olhares intensos,
escutas atentas, corpos ativos, entre outros elementos, todos manuseados com a
consciência de um artesão lúcido e criativo, sabedor do quanto pode oferecer a
seus alunos e ao próprio mundo, num permanente movimento de renovação e ação, “onde
viver o fazer
faz o saber”.[11]
[1]
Caroline Jaques CUBAS & Karen Christine
RECHIA. Apresentação – Elogio do Professor: pensar um ofício para além da
profissão. In: J. LARROSA, K. C. RECHIA & C. J. CUBAS
(org.). Elogio do Professor. Tradução
Fernando Coelho, Karen Christine Rechia & Caroline Jaques Cubas. Belo
Horizonte: Autêntica, 2021, p. 15. (col. Educação: experiência e sentido)
[2]
Mário de ANDRADE. O artista e o artesão.
In: O Baile das Quatro Artes.
4ª ed. – Belo Horizonte: Itatiaia, 2005, p. 12. (col. Excelsior; 40)
[3] Jorge LARROSA. Impedir que o mundo se desfaça.
In: J. LARROSA, K. C. RECHIA & C. J.
CUBAS (org.). Elogio do Professor.
Tradução Fernando Coelho, Karen Christine Rechia & Caroline Jaques Cubas.
Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 86. (col. Educação: experiência e sentido)
[4] Caroline Jaques CUBAS & Karen Christine RECHIA.
Apresentação – Elogio do Professor: pensar um ofício para além da profissão.
In: J. LARROSA, K. C. RECHIA & C. J. CUBAS
(org.). Elogio do Professor. Tradução
Fernando Coelho, Karen Christine Rechia & Caroline Jaques Cubas. Belo
Horizonte: Autêntica, 2021, p. 12-13. (col. Educação: experiência e sentido)
[5] Mário de
ANDRADE. O artista e o artesão. In: O Baile das
Quatro Artes. 4ª ed. – Belo Horizonte: Itatiaia, 2005, p.
12. (col. Excelsior; 40)
[6] Idem, p. 13.
[7] Idem, p. 14-15.
[8] António NÓVOA (org.). Vidas de
Professores. 2ª ed. – Porto: Porto Editora, 2000, p. 16. (col. Ciências da
Educação; 4)
[9]
Miguel G. ARROYO. Ofício de Mestre: imagens e autoimagens. Petrópolis (RJ):
Vozes, 2000, p. 9.
[10] Fernando BÁRCENA. Notícias do interior de uma sala de aula: desde um certo amor pelo
estudo. In: J. LARROSA, K. C. RECHIA
& C. J. CUBAS (org.). Elogio do
Professor. Tradução Fernando Coelho, Karen Christine Rechia & Caroline
Jaques Cubas. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 72. (col. Educação:
experiência e sentido)
[11] Carlos Rodrigues BRANDÃO. O Que é Educação. 5ª ed. – São
Paulo:
Brasiliense, 1982, p. 31-32. (col. Primeiros Passos; 20)