Errâncias, Brechas e Esperanças:
o ofício de ensinar
Marcia Maria do Nascimento
Nos estojos há sempre uma caneta que perdeu a tampa e
ganhou o formato da mão que a segura todos os dias. Larrosa diz que a caneta é
gesto de vida estudiosa – e talvez seja essa vida que mantenha tantos
professores ligados ao sentido profundo da docência, como se a cada traço de
tinta houvesse um modo de registrar e permanecer no mundo. Ser professor é
existir como inspiração, como modo de habitar o cotidiano.
E existir na escola pública é mergulhar em seu caos
colorido. Esse ser professor não é ideia abstrata nem modelo ideal: é corpo que
se desloca pelos meios de transporte, mão que sustenta livros e cadernos, olhar
que insiste em não esmorecer diante das dificuldades. É fazer-se professor com
livros, lápis, cadernos, lousas – ferramentas que funcionam como pás, cavando,
cotidianamente, possibilidades onde antes havia apenas terra dura. Nesse cavar
diário, a aprendizagem se apresenta como reciprocidade silenciosa entre
professor e estudante, atravessando o cotidiano e sustentando a escola como
espaço vivo.
A docência também carrega uma solidão que raramente
se nomeia. Uma melancolia leve que se insinua quando tudo ao redor vira
planilhas, formulários, protocolos, tabelas, índices, números. Muitas vezes
parece restar pouco daquilo que motivou a escolha por esse caminho. Mas basta
um novo dia, uma nova proposta e o olhar curioso de um estudante para reavivar
a disciplina mais fundamental do ofício: a disciplina do olhar que abre mundos.
Um olhar que acende janelas. Nesse instante, professor e estudante se tornam
parceiros na travessia, porque aprender é sempre encontro – e estudar, sempre
convite. Assim o cotidiano se leva adiante: em pequenos gestos que, repetidos,
tornam-se prática formadora.
Estudar, escrever, arar: verbos que se repetem como
rezas de persistência. Verbos que deixam poeira nas mãos e nas roupas. Entre
dedos que carregam cansaços, canetões que mancham as mãos e lousas, lápis que
se desgastam, canetas que findam – e, apesar disso, ou talvez por causa disso,
os gestos seguem. Mundos possíveis continuam a ser cavados no chão duro das
expectativas e pressões. Ensinar e aprender, nesse cenário, tornam-se atos de
insistência contra a aridez do mundo.
Nesse ritual cotidiano, forma-se um ethos, no
sentido foucaultiano: o modo de se relacionar consigo mesmo, com o outro e com
o mundo. Um ethos que nasce quando o professor se reconhece responsável
por um tipo raro de delicadeza: a de abrir brechas – para o pensamento, para a
imaginação, para a infância, para o humano. Brechas que impedem que a escola se
transforme em máquina total, homogênea, esmagadora.
Mas há algo que pulsa ainda mais fundo no exercício
desse ofício: a resistência.
O professor da escola pública é, antes de tudo, um
corpo que resiste.
Resiste quando recusa que a criança seja reduzida a
número. Resiste quando transforma o tempo apressado em tempo de escuta. Resiste
quando o excesso de burocracia tenta engolir a aula e, ainda assim, a aula
acontece. Resiste quando oferece escuta e diálogo a quem recebeu silêncio. Resiste
quando abre horizontes a quem sempre disseram que não era preciso continuar,
que o pouco já bastava.
Cada gesto – por menor que pareça – é uma
desobediência às desigualdades que tentam moldar o destino dos estudantes. “Dar
aula”, ali, é também um ato político. É afirmar que ninguém está condenado ao
lugar de onde veio. É insistir que aprender é direito, e não privilégio. É
garantir que seja para todos, com qualidade, com liberdade. Porque a educação
pública só faz sentido quando reconhece cada criança como parte legítima do
mundo – e quando garante a todas acesso efetivo ao conhecimento que transforma.
Por isso a sala de aula, tantas vezes, se transforma
em território de esperança. Nela se costuram mundos que ainda não existem, mas
que podem vir a existir. E tudo isso acontece porque, diariamente, alguém
mostra um novo caminho a alguém, numa corrente silenciosa que sustenta a
própria ideia de sociedade.
Larrosa destaca a distinção entre professor e
pedagogo, embora ambos possam habitar a mesma pessoa. O pedagogo – aquele que
conduz – não conduz pela força, mas pela abertura de caminhos. É guardião da
alma da escola, protetor de seu caráter público e formador. Mantém viva a
possibilidade de que a escola seja travessia, e não confinamento.
Travessia: palavra que acompanha cada início de aula.
Todos os dias, crianças atravessam limites, origens, histórias – e os
professores também. Aprender, como lembra Serres, é errância. É desvio. É
nascer outra vez. Ser professor e acompanhar essa errância é também
deslocar-se, rearrumar-se, reinventar-se. Só assim o conhecimento circula como
deve: livre, plural e acessível.
E a escola, quando consegue ser verdadeiramente
escola, oferece justamente isso: a chance de reinventar a vida. É o espaço onde
o destino não está pré-determinado, onde é possível bifurcar, escolher, sonhar.
A escola coloca o mundo sobre a mesa – às vezes esmaecido, às vezes incompleto –
mas o entrega ao alcance das mãos. E o entrega a todas as mãos, sem exceção,
afirmando que ninguém deve ficar de fora da experiência de aprender.
É nesse gesto – simples, diário, frágil e poderoso –
que reside a resistência mais profunda.
Porque cada caderno aberto é uma porta.
Cada pergunta é uma fissura no mundo tal como ele é.
Cada aprendizagem é uma pequena transformação que se
espalha.
Nas estratégias diversificadas de cada aula, há
sementes.
Nas mãos dos estudantes, há futuros ainda sem nome.
E no trabalho do professor, há sempre a possibilidade
de que a sociedade inteira se mova – mesmo que um milímetro por vez.
Ensinar e aprender, quando acontece de verdade, é
esperança radical. E esperança, sobretudo nestes tempos, é a forma mais poética
e mais urgente de resistência.